sexta-feira, 17 de agosto de 2012

FATOS RELEVANTES DA INDEPENDÊNCIA E DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA Erasmo Figueira Chaves *Nada seduz mais um pesquisador, fiel à sua ciência, que encontrar um fundamento que traduza a realidade, ou seja, chegar a uma conclusão com imparcialidade, auxiliado com a cristalinidade da verdade implícita na documentação, base única de qualquer honesta, sensata e plausível interpretação. Por não ser a pesquisa um processo de fácil execução, com claros e definidos contornos de começo e finalização, a mesma é de fato um terreno movediço, cuja localização, sondagem e clareza de seus contornos, independe da vontade ou desejo do autor, assemelhando-se mais propriamente a um tonel de dimensões e capacidade infinita, o “danaidum dólium” da mitologia, recipiente sem fundo, que jamais se preenche, especialmente no caso do dedicado e vocacionado pesquisador, reduzido ou rendido apenas à pressão do tempo, aos seus limites, conhecimentos e à evidência do óbvio, concedendo-se apenas breve interregno a esse desconfortável, mas honesto processo ou dever “infernal infinito”, quando fatalmente chega a data da entrega da tese, livro ou texto, sem ter podido dar-se plenamente por satisfeito ao reconhecer-se impossibilitado materialmente de cumprir, “ipsis litteres”, a sentença ou castigo imposto a suas filhas assassinas, por Dânaos, rei de Argos*. *O diálogo franco entre o passado e o presente está cheio de matizes e nuances, que só a documentação e sua respectiva criteriosa análise, auxiliada com a sensibilidade objetiva e subjetiva da memória e da cultura, por autorizados e conspícuos autores, diletantes ou intérpretes de todos os tempos, dos primitivos sons guturais imitidos pelo homem das cavernas, no esforço de sua comunicação pela fala, da escrita cuneiforme à cursiva, às ingênuas e inevitáveis perguntas e respostas, no diálogo franco que pode permitir a proposta, o exame plural plausível, desapaixonado e veraz, das distintas versões de um mesmo fato, e dos históricos atores, que possam ser aceites e passados com credibilidade às gerações subseqüentes.* Escrever sobre a história e fatos da nossa independência e correlata vinculação com os episódios que implantaram a República é tarefa ingente, que exige pesquisa séria, paciente, *honesta*, acurada, sem assoberbamento ou o desmedido entusiasmo *ufanista* da primeira impressão, requer consciente serenidade em busca de documentação veraz, integra, análise e leitura sem conta, nem desculpa, de testemunhos ou depoimentos comprobatórios, que nos revelem a essência da verdade, rigorosa e esmeradamente interpretada, tal qual ela foi e deve ser lida, transmitida, discutida, entendida, tantas vezes escondida ou disfarçada da óbvia verdade histórica oficial,*muito de acordo com os ventos que bafejaram os vitoriosos ou o política oficial resultante,* para destrinçar, separar, desenredar, * tarefa a que o probo historiador ou sério diletante deve *com exatidão* votar-se, para que se esclareçam pontos nebulosos e obscuros, espaços, incógnitas, intervalos, lapsos, descuidos, falhas, dúvidas, perguntas que freqüentemente assaltam a exigente mente indagadora do rigoroso perscrutador ou de quem tente penetrar com lúcido e esmerado espírito, irrepreensível autoridade moral e intelectual, na alma dos homens, no segredo e explicação das coisas, na cristalina e imparcial análise de fatos e detalhes, para transmitir à sociedade e à posteridade a explicação cabal, verdadeira, a impessoal e responsável impressão dos acontecimentos, das motivações, dos sentimentos, jamais com *exagero, exacerbação, patriotismo excessivo* por vezes das atrevidas pretensões, que gestos corajosos e eloqüentes, *tenham* levado às transcendências e a conclusões nem sempre exatas das aparentes ,*ou não tão aparentes*, evidências. Para tudo isto, que não é nada pouco nem exagero, entretanto, é imprescindível prévia adequada tranqüilidade temporal, *ambiental,* honestidade de espírito, ponderação, recolhimento, meditação, a presença de paz interior, no fruir de todo o tempo disponível, exigível pela tarefa, na imperativa consciência da integridade, na absoluta ausência da pressão editorialista, dos condicionalismos e prazos, das edições com data marcada, das datas pré estabelecidas das comemorações, dos eventos e das encomendas. Para a verdade histórica e a competente interpretação dos dados colhidos, sobretudo, nada é mesmo pior que as encomendas, com data marcada ! . . . Do historiador Tito Lívio Ferreira reproduzo este interessante trecho que se coaduna com o que tento expressar: . . . há mais de duzentos anos, Voltaire escrevia: “L’histoire n’est jamais faite, on * la refait sans cesse” “ A história nunca está feita; refazemo-la sem descanso”. O grande pensador e escritor francês compreende, intuitivamente, o princípio científico da história. Se a história não existe antes do historiador ele é historiógrafo e de direito, quando na riqueza humana do mesmo desabrocha o valor, a verdade, a clareza do trabalho histórico. Em meados do século XIX, Francisco Adolpho de Varhagen, pai de nossa história, assim o compreendeu, quando afirmou: “Acusam-no (ao Marquês de Pombal) de haver usado demasiado rigor com alguns que haviam sido colegas no ministério, como Diogo de Mendonça Corte Real, demitido em 1756; Tomé Joaquim da Costa, em 1760, e José Seabra, seu antigo auxiliar nos assuntos contra os Jesuítas, demitido em 1774, o primeiro dos quais foi desterrado, (no século XVI escrever-se-ia degredado) para Mazagão (Africa) e este último para Vizeu e Porto”. Mas “os que assim pensam, pretendem que há mais de um século se pensasse como hoje”, e esquecem-se que devia ser quase “crime de lesa-majestade” haver o primeiro revelado os projetos de casamento da herdeira do trono com um infante de Espanha, e o último, nada menos que certos planos de El-Rei Dom José I de fazer passar a sucessão da Coroa a seu neto o Príncipe D.José, em detrimento da Princesa do Brasil, D. Maria I, sua mãe. (Francisco Adolfo de Varnhagem, “História Geral do Brasil” T.-IV) O grande historiador Varnhagen aprendera o postulado científico da história no espigão do seu século. Seu espírito, sua inteligência, sua cultura, compreendem o mistério da história e procuram explicá-lo. Não o compreendem, nem o explicam, os panfletários da história. Julgam os homens de outros séculos como se fossem homens de hoje, como se pensassem como nós pensamos. Erram os que assim pensam por incultura histórica e sociologia. Por isso mesmo, o historiador sorocabano esclarece: “Essa acusação desaparecerá, “cremos nós,” quando venha a ser integralmente dado à luz todo o processo e documentação que nos asseguram existir em Portugal” “Cremos nós”, escreveu o historiador, com certa malícia e alguma ironia. Ora, ele sabia, e todos sabem que certas pessoas não acreditam na evidência mostrada aos seus olhos. Duvidam, negam, porque são negativistas por sistema. . . . Como é do conhecimento geral, ou deveria ser, a história da Maçonaria brasileira, é justo reconhecê-lo, está indelevelmente ligada à fundação do Grande Oriente do Brasil. Independentemente desse fato, na madrugada e florescer da difusão das idéias iluministas ou positivistas, outros fatos isolados de grupos ou pessoas de vocação altruísta, podem ter iniciado organicamente algum tipo de atividade ou organograma funcional, sociedade secreta ou não, com os mesmos objetivos de soerguimento social da nação, como entre nós, por exemplo é o caso do “Areópago de Itambé” ou da “Academia dos Renascidos”. Mesmo que dúvidas se possam levantar dessa atividade reservada como origens da maçonaria no Brasil, antes de 1789 já funcionavam “células secretas” visando a reforma social no Brasil. Felício dos Santos, com diversos outros historiadores, afirma que Tiradentes iniciou o seu apostolado após a viagem que fizera à Bahia, onde ficara senhor dos “segredos maçônicos”. A verdade é que, embora exista abundante material documental, o que se tem publicado e se publica oficialmente sobre o desempenho histórico da Maçonaria como Instituição, no geral, apenas acidental ou ocasionalmente merecem menção pública oficial os fatos feéricamente importantes que redundaram na proclamação da Independência e posteriormente da República. Parece haver uma “história oficial”, pronta, definitivamente acabada e tranquilamente repetida, que o Ministério da Educação dos diferentes governos e de acordo com as ideologias reinantes “manda” as escolas ensinar, às vezes com um pouco mais de tinta aqui ou ali, nuances de todo o tipo, mas sem expressar quaisquer dúvidas, interrogações, ou qualquer estímulo à pesquisa, ao incentivo e prática da nobre tarefa de pensar e raciocinar sobre os fatos, sobre a longa história pátria, como se esta já tivesse sido toda indiscutivelmente contada e bem contada, feita e terminada, sem sair dos cânones estabelecidos nem do enfoque ou ênfase da conveniência política do partido ou do momento. O rigor histórico parece ficar pairando como auréola geral, adorno eufemístico ou certo tabuísmo, raramente bem e devidamente aprofundado, assunto assente e acabado, escolhe-se preferencialmente qualquer locução ou acepção mais agradável, de que usualmente se lança mão para suavizar ou minimizar o peso conotativo de mais completa, radical e cristalina verdade. Ou será apenas tênue ou incômoda verdade, que não convém agitar? Neste hipotético caso, a quem essa verdade incomodaria? Qual desdouro ou inconveniência dela brotaria? Será que a máxima de Augusto Comte “Os vivos são sempre, cada vez mais, necessariamente governados pelos mortos” constitua expressão válida ainda hoje para explicar certas incongruências ainda não clara e devidamente destrinçadas em nossa história? Goethe dizia que só podemos superar o imediatismo dos medíocres, em face da vida, remontando séculos ao conhecimento do povo a que pertencemos, e por essa senda ao conhecimento de nós mesmos, pois todo o homem é inquestionavelmente o produto de uma tradição acumulada. De Hugo Weiss, “O Brasil Monárquico”(Enciclopédia Delta de História do Brasil,) vejamos em um dos seus trechos “... “De lá (França) vinha a Doutrina Filosófica de Augusto Comte, o Positivismo, conquistando aqui, numerosos adeptos. Os positivistas, que rejeitavam os princípios religiosos da Igreja católica e defendiam idéias que não se ajustavam de forma alguma às tradições monárquicas, viam, na República, a solução para os nossos problemas. Não só entre os homens de letras e da imprensa, as idéias positivistas e republicanas encontraram seguidores. Tudo o que ocorria, na França, alcançava grande repercussão no Brasil. Também nos meios militares, essas idéias foram bem recebidas, principalmente, entre a oficialidade jovem” . . . De fato as idéias dos positivistas, iluministas e pensadores que brotavam e se difundiam em profusão nas universidades européias, Paris, Montpellier, Londres, Coimbra, Salamanca, etc. para onde iam estudar os privilegiados filhos dos abastados produtores de açúcar e café, os quais voltavam impregnados e insuflados dos postulados republicanos, de iluminismo, da contundente esperança positivista e do contrato social de Rousseau, cuja mensagem atingindo e abrangendo o pais de tal maneira e sobretudo a classe detentora do poder e da economia, encontrava a todos esses dirigentes, proprietários, intelectuais ou intelectualizados, preocupados todos com a construção e definição de uma identidade nacional. Na Europa aqueles estudantes contatavam as Lojas maçônicas, e nelas, as personalidades mais destacadas em todas as áreas do conhecimento humano. A preocupação geral era encontrar soluções para o problema do soerguimento das massas, e das injustiças sociais orgânicas, cuja solução só poderia ser encontrada na mudança das condições políticas e materiais que regiam aqueles tempos. Buscavam-se soluções e orientação em todos os escaninhos que a ciência e o pensamento pudessem oferecer. “Descobriam-se” e pesquisavam-se os filósofos e os iluministas, de Sócrates, Platão, Aristóteles a Kant, a Rousseau a Auguste Comte. Tudo que significasse grandeza, razão e nobreza de espírito era automaticamente enaltecido. Uma simples frase pronunciada adquiria uma dimensão transcendente de valor edificante. *Ansiava-se por padrões e códigos que influenciassem mudanças, não só institucionais ou políticas mas do caráter individual e coletivo; repetiam-se falácias, empolgados entusiasmos, dizeres pomposos com sentido edificante, informativo, e disciplinar. Citava-se o contrato social, e a Rousseau: “O homem culto é o homem bom”. Citavam-se os iluministas, positivistas, seus filósofos, a antiguidade e civilização grega. Se alguém ansiava por orientação através de um código moral de conduta, saiam-se com certa liberdade, aleatoriamente, por exemplo, com algo como: pediram a Aristóteles um código moral por onde pautar a vida, ele teria dito: "Não posso dar-lhes um código; observe os homens melhores e mais sábios que você possa encontrar e imite-os"! . . .* A Maçonaria constituía-se então no grande local de encontro para as “sociabilidades” e diálogo com as “modernidades” do pensamento iluminista e positivista. Estendia-se com suas lojas vitais por todo o território nacional. Funcionava na prática como “club”, como único “partido político” bem organizado, com sedes e oficinas em todas as partes importantes do país, a que os políticos do Império, sobretudo , não podiam nem queriam ser indiferentes. Inclusive o Monarca, imperador Pedro I, e seus mais importantes conselheiros e amigos, especialmente naqueles periclitantes momentos vitais para a transição e destinos políticos que a futura nação iria enfrentar em sua relativa soberania. Nesses locais se discutiam idéias, recebiam-se informações atualizadas, produziam-se debates, por gente viajada, prestigiada e competente, e todos queriam participar dos mesmos. Foi certamente um momento empolgante, entusiasmante, esse surgimento arregimentado da vida nacional. Há uma figura gloriosa e ao mesmo tempo obscura de nossa historia, tão importante no período pré e pós Independência, figura central, motor e líder em todo esse processo e no desenrolar dos acontecimentos que levam à república democrática, mas hoje praticamente ignorado, tristemente desconhecido do grande público, da nação e da escola, dessa escola que não ressalta e vinca a importância da pesquisa, do apropriado incentivo e treinamento à arte de pensar, discutir, dialogar, opinar na* busca ética da verdade, permitindo manter-se no limbo do ostracismo a memória desse importante ser, de vital importância na conquista da Liberdade e da República democrática brasileira. Trata-se do inspirado lider maçon, grande patriota e estruturador ímpar, o primeiro brasileiro Joaquim Gonçalves Ledo. A carta que Joaquim Gonçalves Ledo escreve a seu irmão Custódio, ainda muito cedo, antes da fundação da Loja Comérico e Artes e dos acontecimentos que levaram à independência, é documento revelador do espírito de liderança e pretensões de seu espírito patriótico republicano: Documento inserido à página 148 do livro “ Maçonaria Adonhiramita e o Escossismo”, do Ir:. José Daniel da Silva, onde consta como Anexo III a transcrição de uma carta de Gonçalves Ledo a seu irmão de sangue Custódio, datada de 1808, quando ainda em Portugal, que aqui reproduziremos por sua evidente importância histórica para a compreensão dos propósitos eminentemente políticos e sociais da maçonaria brasileira da época. “Custódio, Disse-lhe na carta de 14, que seguiu pelo correio inglês, ter sido meu ato reprovadíssimo por todos. Censurado geralmente. Mas eu tenho razões patrióticas para não acompanhar o Dr. Andrada nas forças de front. A invasão do General Junot, a partida do Rei e da Corte para o Rio de Janeiro, o tratado de Fontainebleau, os acontecimentos que ora se desenrolam na Europa são, e ninguém o negará de boa fé, o início, senão o grande passo da nossa formação nacional, da liberdade do Brasil. Brasileiro, não seguirei os Batalhões Portugueses, nem derramarei meu sangue na defesa dos opressores de minha terra de nascimento, o amado Brasil. Dizem-me fraco e pusilânime, ignorantes que são todos dos meus intuitos não proclamados abertamente. Se o Rei de Portugal, se a nobreza de Portugal, abandonaram o berço que os embalou, não serei eu, nascido no Brasil, odiando os matadores de Tiradentes, que iria para o campo de batalha lutar pela liberdade dos déspotas que sugaram e ainda sugam as riquezas brasileiras. Partirei daqui brevemente e acompanhado de mais amigos e irei organizar no Brasil a primeira Loja que será o centro da propaganda liberal do Brasil. Lembre-me ao Araújo e eu sou o seu irmão. Joaquim Gonçalves Ledo” Escolhi-o portanto por todo o mérito de quem tem a valentia e a genialidade de criar alguma coisa, fazer dela uma tese e liderá-la até implantá-la. Escolhi-o como exemplo, sensibilizado pela patente realidade do que os lapsos sociológicos da história, mencionados mais acima, o esquecimento e o desinteresse dos concidadãos, que com a abulia do tempo e, a falta de premência veraz do conjunto social sobre a história, podem produzir, na vigência da distraída ausência de qualquer parcela de consciência e sentido de justiça perante fatos vitais, documentos e circunstâncias. Em oportuna e feliz ocasião proferi palestra na nobre Casa de História, vivência e anseio por verdade documental, que é o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, a Casa de Aluízio de Almeida, local certo, adequado e mais que apropriado para falar de história, e fundamental para tentar a achega ou aproximação a uma especial e justa redenção, tendo escolhido como tema este fato, a vida e perfil de Joaquim Gonçalves Ledo, o grande patriota, por sua dignidade, por sua vida coerente, por sua visão como um legítimo ser que defendeu sempre, desde cedo, primeiramente, com invulgar, sincera autenticidade e bravura, uma enorme causa, uma grande idéia, esse lídimo e bem motivado ser humano, possuidor de altíssimos ideais, um percussor sob cuja inspiração e postura me sensibilizo ao recordá-lo. Quero recordar e destacar Joaquim Gonçalves Ledo, o grande líder, o patriota, o homem de ação e destemida vocação patriótica, que merecidamente poderia ostentar o título de “Patriarca da República Brasileira” o pai de novos e alvissareiros ventos, pois com justiça foi o primeiro brasileiro digno deste nome, aqui nascido para produzir a grande rotura, o grande início de uma pátria livre. Porquê recordar? Porquê recordá-lo? Porquê fazê-lo nesta *ocasião de comemoração simbólica, homenagem, integração e testemunho público, na publicação de “Um olhar sobre a história da Maçonaria”?* Porque posso em dimensão ver hoje nele, em primeiro lugar, o “homem”, o “homem” capaz de visualizar e sentir num relance, muito antes que os demais, mundos inauditos, apenas visíveis pelos olhos do espírito, os únicos que conseguem ver clarividentemente com perspicácia e intuição, imparcialidade, independência, visão histórica e transcendência, através do sentido equânime da justiça e do bem comum, o destino de humanidades desvalidas, adormecidas, embrutecidas, condicionadas por milênios de opressão, abúlico consentimento, ausente aos privilégios e abundante de circundantes ignorâncias, condições, infra-humanas que despertam no homem de bem, integro e de excepcional talento, visão e vocação, a tomada de posição ao enfrentar desafios, assumindo lideranças, riscos e ações em busca de correções e rumo certo. * Com o auxílio do Google, maravilhoso e prático instrumento indispensável ao pesquisador, por achar útil e informativo, para os fins deste trabalho, pinço do artigo “Pedreiros Livres e a Maçonaria” inserido em páginas da web, da Loja Comercio e Artes, sem autor específico mencionado, as interessantes e breves * considerações sobre os dois mais notáveis lideres da Independência, pois foi obviamente* também José Bonifácio, vital e grande figura da transição política da independência, estrategista e diplomata, o qual guiado inicialmente pela ação e liderança de Ledo, tendo sido levado por sua influência, persistência, autoridade ética, coação psicológica, ou *constrangimento moral , paulatinamente, de sua posição frontalmente monárquica e ligada a Portugal, para posterior postura mais liberal, que foi o que o *tornou o grande “costurador”, construtor da unidade brasileira. Com seu gênio, diplomacia e concessões e a amizade de D. Pedro, foi moldando, amoldando e *desbastando arestas, compondo, aproveitando, adaptando, aparando o inflamado vigor e ímpeto de seu “irmão maçônico” Joaquim Gonçalves Ledo, o grande acicate de idéias, incentivo, luta, teimosia, estímulo, constância, encorajamento, que este propalava e arquitetava sem descanso. . . . “Com a eclosão da Revolução Pernambucana em 1817, severamente reprimida e em que foram executados muitos patriotas brasileiros, D. João VI expediu Alvará em 1818, que declarava criminosas e proibidas todas e quaisquer sociedades secretas e determinava pena de morte a seus integrantes e aos que participassem de suas atividades. O alvo era a Maçonaria. Entretanto, vários maçons brasileiros, correndo os riscos inerentes, continuaram seu trabalho político em outros locais, sob a capa de sociedades recreativas e culturais. Exemplo disso foi o Clube Recreativo e Cultural da Velha Guarda, fundado por Joaquim Gonçalves Ledo. Também, com o mesmo objetivo, fundou José Joaquim da Rocha, em sua própria casa, o Clube da Resistência. Era essa a situação da Maçonaria brasileira, às vésperas do retorno de D. João VI a Portugal: fora da lei, funcionando clandestinamente, em locais improvisados, disfarçada em Clubes e Associações de caráter cultural e recreativo. Vê-se aqui que pertencer à Maçonaria nos reinos e domínios da Coroa Portuguesa não era assim tarefa facilitada.* “Com a eclosão da Revolução Pernambucana em 1817, em que foram severamente perseguidos e reprimidos, na época que antecede à Independência, não era * portanto nada muito fácil. Uma declaração do Intendente de Polícia no reinado de D. Maria I reitera isto, confessou ele em certa ocasião: "... Desde 1788 combati com vigor o estabelecimento dos franco-maçons neste reino...os membros desta associação infame pertencem a todas as classes da sociedade. As nossas medidas rigorosas reprimiram uns, fizeram abjurar outros e os relapsos foram sentenciados". Assim eram considerados os maçons, naquela época: verdadeiros subversivos, tanto em Portugal como no Brasil. *A propósito de retaliações e perseguições à maçonaria brasileira, repasso e-mail recebido, e feitas algumas consultas de pesquisa um indício interessante explicativo:, com o meu agradecimento aos amigos que me enviaram esse interessante material - Subject: Parati e Maçonaria Carssimos IIr.. Avaliem o susto que o Ir. Moacir Vieira da ARLS Penha de França 393 tomou, quando ao mergulhar nas águas profundas da Ilha dos Meros em Parati-RJ, se deparou com o que pode ser visto nas fotos em anexo. Se alguem tiver informações de como isso foi parar aí, por favor: aguardamos ansiosos! T..F..A.. Olá, Prof. Erasmo! Tudo bem com o Sr.? Muito interessante essas fotos. Tenho um livreto intitulado " O que voce precisa saber sobre a Maçonaria " de autoria de Elias Mansur Neto e na pagina 31 está escrito o seguinte : "1809-1812 - É fundada na freguesia de São Gonçalo, Niteroi, a Loja Distintiva. Tinha como emblema um "indio vendado e manietado por grilhões e um genio em ação de desvendá-lo e desagrilhoá-lo. Por ser republicana e revolucionaria, foi denunciada e dissolvida, tendo seus arquivos e alfaias lançadas ao mar, na altura da Ilha dos Ratos." (Ilha dos Ratos fica em Paraty) Como não conheço muito bem o Rio de Janeiro, não sei se Niteroi fica perto de Paraty. Acredito que não seja perto, o que também me leva a supor que deve haver mais emblemas como esse no fundo do mar. Mas o importante é que essa peça foi colocada nessa posição; a possibilidade de ela ter caido em pé (na minha opinião) é minima. Nesse mesmo livro, na pagina 32, está escrito o seguinte: " 1822 - Por indicação de Domingos Alves Branco, a Loja Comercio e Artes confere a D. Pedro I o titulo de Protetor e Defensor Perpetuo do Brasil". Segundo o memorialista ituano Francisco Nardy Filho, quem primeiro solicitou o pedido da entrega desse titulo a Sua Majestade D. Pedro I, foi o ituano e Conselheiro do Imperio, Sr. Paula Souza. Fico em duvida qto a isso. Estou procurando em meus livros e cadernos algumas informaçoes sobre a Independencia do Brasil e assim que tiver mais algum material eu lhe escrevo, ok? forte abraço. Carlos Eduardo P. Massoco `.` A volta de D. João VI para Portugal, em abril de 1821, permitiu a reorganização da Maçonaria no Brasil, sob a direção de Joaquim Gonçalves Ledo. A Loja Comércio e Artes foi reaberta ainda em 1821, tendo por obediência o Grande Oriente de Portugal. Pesava ainda, porém, sobre os maçons, o Alvará de 1818. Era necessário revogá-lo. Até lá bastava que a Maçonaria fosse consentida e que membros do governo fossem se comprometendo com ela. Entretanto, como a Maçonaria vinha lutando e, então, mais do que nunca, pela independência do Brasil, era necessário que adquirisse autonomia com a fundação de uma Obediência própria, separada da portuguesa. Em princípios de 1822, a Loja Comércio e Artes tinha em seu quadro 94 membros, número mais que suficiente para se desdobrar em mais duas outras Lojas e assim formar uma Obediência Maçônica brasileira. Foi o que se fez. Criadas mais duas Lojas: a União e Tranqüilidade e a Esperança de Niterói, foi fundado em 17 de junho de 1822 o Grande Oriente Brasiliano. Foram eleitos por aclamação, como Grão-Mestre, José Bonifácio de Andrada e Silva; Grão-Mestre Adjunto, o Marechal Joaquim de Oliveira Álvares, Primeiro Grande Vigilante, Joaquim Gonçalves Ledo e o Padre Januário da Cunha Barbosa como Grande Orador. Uma vez fundado o Grande Oriente Brasiliano, o Brasil se preparava para a arrancada final que o conduziria à Independência. Cabem aqui dois pequenos destaques: (1) O GOB fundado nesta ocasião é nomeado em diferentes textos de várias formas, em alguns casos é chamado de Grande Oriente Brasiliano, em outros a palavra Brasiliano é substituída por Brasílico, do Brasil e Brasileiro; (2) O Grande Oriente Brasiliano foi a primeira potência maçônica a ser instalada na América Latina, seguido em curtos intervalos pelas colônias espanholas. 2 - Expoentes Maçons da Independência. A Independência foi feita por muitos, nem todos eles eram maçons, mas certamente a ordem maçônica contribuiu de maneira intensa e de forma muito qualitativa para a formação do quadro daqueles que levaram a contento este importante feito. À frente do movimento, agindo de maneira enérgica e participativa, achavam-se muitos Pedreiros Livres de primeira hora, são citados freqüentemente nos livros de história os nomes de José Clemente Pereira, Cônego Januário da Cunha Barbosa, José Joaquim da Rocha, Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, Felisberto Caldeira Brant, o Bispo Silva Coutinho Jacinto Furtado de Mendonça, Martim Francisco, Monsenhor Muniz Tavares, Evaristo da Veiga dentre muitos outros. No entanto, estes nomes mencionados não incluem os daqueles que foram realmente os grandes arquitetos do Sete de Setembro. Estes são dois e respondiam pelo nome de Joaquim Gonçalves Ledo e José Bonifácio de Andrada e Silva. Estes dois homens lideraram os maçons divergindo principalmente com relação à forma como a Independência deveria ser conduzida. Havia, sem sombra de dúvida, uma luta ideológica entre os grupos de José Bonifácio e de Ledo. Enquanto o primeiro defendia a independência dentro de uma união brasílico-lusa perfeitamente exeqüível o segundo pretendia o rompimento total com a metrópole portuguesa, o que poderia tornar difícil a transição para país independente. E essa luta não era limitada, evidentemente, às paredes das lojas maçônicas, assumindo caráter público e se estendendo, inclusive, através da imprensa. Embora ambos os grupos sempre tenham trabalhado pelo objetivo principal, a disputa entre eles persistiu por tão longo período que, após a Independência, face aos conflitos, D. Pedro mandou, como Grão Mestre e como imperador, que o Grande Oriente fosse fechado. Só em 1831 é que a Maçonaria renasceria no país depois da abdicação de D. Pedro através de dois grandes troncos: o Grande Oriente Brasileiro, que desapareceria cerca de trinta anos depois e o Grande Oriente do Brasil. Passamos agora a um breve relato biográfico destes dois grandes maçons: Joaquim Gonçalves Ledo Gonçalves Ledo nasceu no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1781. Em 1795, foi para Portugal, onde ingressou na Universidade de Coimbra para estudar Direito. Com a morte do pai, interrompeu o curso, retornando ao Brasil em 1808. Liberal e constitucionalista, sonhava com a libertação do Brasil, nos moldes dos princípios adotados pela Revolução Francesa. Aqui no Brasil continuou a estudar, tendo desenvolvido seus conhecimentos na ciência jurídica a tal ponto que chegou a ser advogado de sucesso. Era orador vibrante e eloqüente. Teve atuação firme, destemida e inteligente na condução e envolvimento da Maçonaria na preparação e consecução da Independência. Alguns fatos de destaque em sua vida: • Juntamente com o Padre Januário da Cunha Barbosa, um mês após a reabertura da Loja Comércio e Artes, fundou o jornal "Revérbero Constitucional Fluminense" para divulgar as idéias liberais e libertárias. Foi este o órgão doutrinário da Independência brasileira; • Quando da fundação do Grande Oriente Brasiliano foi eleito por aclamação Primeiro Grande Vigilante, juntamente, com o Grão-Mestre, José Bonifácio de Andrada e Silva; • Em conjunto com José Bonifácio e seus irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco, todos maçons e amigos de D.Pedro, foram os principais articuladores do ingresso deste na Maçonaria; • Em 20 de maio de 1822 dirigiu ao Príncipe a seguinte exortação: "Quando uma nação muda seu modo de existir e pensar, não pode, nem deve tornar a ser governada como era antes da mudança. O Brasil, elevado à categoria de reino, reconhecido por todas as potências (...), tem inquestionável jus a reempossar-se da porção de soberania que lhe compete, porque o estabelecimento da ordem constitucional é um negócio privativo de cada povo. "A natureza não formou satélites maiores que os seus planetas. A América deve pertencer à América, a Europa à Europa; porque não debalde o Grande Arquiteto do Universo meteu entre elas espaço imenso que as separa. O momento para estabelecer-se um perdurável sistema, e ligar todas as partes do nosso grande todo, é este. Desprezá-lo é insultar a Divindade, em cujos decretos ele foi marcado, e por cuja lei apareceu na cadeia do presente. "Tu já conheces os bens e os males que te esperam e à tua prosperidade ... Queres? ou não queres? Resolve, Senhor". • No dia 1 de agosto de 1822 envia a D.Pedro o seguinte manifesto: "Não temais as Nações Estrangeiras: a Europa que reconheceu a Independência dos Estados Unidos da América, e ficou neutra na luta das colônias espanholas, não pode deixar de reconhecer a do Brasil, que com tanta justiça e tantos meios, e recursos, procura também entrar na grande família das Nações. Do Amazonas ao Prata não retumbe outro eco, que não seja de Independência. Formem todas as nossas províncias o feixe misterioso, que nenhuma força pode quebrar". • Ignorando o que havia se passado no Ipiranga em 7 de setembro, pois de São Paulo ao Rio gastavam-se cinco dias, o Grande Oriente Brasiliano, em sua 14ª Sessão, realizada no dia 9 de setembro de 1822 (20º dia do 6º mês), e não 20 de agosto, presidida por Joaquim Gonçalves Ledo, aprovou por unanimidade a moção deste que exigia que fosse proclamada nossa Independência. José Bonifácio de Andrada e Silva José Bonifácio, como Ministro do Reino, foi a figura principal do Gabinete do Príncipe Regente, D. Pedro. Foi o primeiro brasileiro a ocupar um Ministério. Tinha 59 anos então. Nascido em Santos, foi educado em Coimbra, onde se tornou professor de sua famosa universidade e secretário da Academia de Ciências de Lisboa. Respeitado nos círculos cultos da Europa, havia viajado por quase todos os países do Velho Continente e mantinha relações pessoais com seus mais notáveis cientistas. Era poderosa sua influência sobre o Príncipe D. Pedro e a Princesa Dona Leopoldina. Embora não fosse tão incisivo, às vezes virulento e manifesto quanto o era Gonçalves Ledo, vários fatos históricos justificam plenamente o título de Patriarca da Independência com o qual Bonifácio é lembrado. Os acontecimentos de 07 de setembro de 1822 foram, comprovadamente, premeditados e conduzidos por José Bonifácio. Em suas Memórias, Antônio de Menezes Vasconcellos Drumond, emissário da Maçonaria nas províncias de Pernambuco e da Bahia relata detalhadamente os acontecimentos que precederam o Grito do Ipiranga e como José Bonifácio os havia conduzido. Citaremos a seguir alguns dos fatos entre os inúmeros que contaram com a participação de José Bonifácio: • Foi o primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente Brasiliano eleito por aclamação na data de sua fundação; • Foi o propositor da iniciação do Príncipe Regente; • No episódio do Fico, escreve uma vigorosa representação conclamando D.Pedro a permanecer no Brasil. Nesta é possível ler: “V. Alteza Real deve ficar no Brasil, quaisquer que sejam os projetos das Cortes Constituintes, não só para o nosso bem geral, mas até para a independência e prosperidade futura do mesmo. Se V. Alteza Real estiver (o que não é crível) deslumbrado pelo indecoroso decreto de 29 de setembro, além de perder para o mundo a dignidade de homem e de príncipe, tornando-se escravo de um pequeno grupo de desorganizadores, terá que responder, perante o céu, pelo rio de sangue que, decerto, vai correr pelo Brasil com a sua ausência.... • Assim como Gonçalves Ledo, às vésperas da Independência, Bonifácio, ( já convencido e convertido) encaminha um manifesto a D. Pedro. Neste ressalta sem nenhuma inibição a revolta brasileira contra o que houve de mais opressivo nos três séculos de dominação colonial. Convidava todas as nações amigas do Brasil a continuarem a manter com este as mesmas relações de mútuo interesse e amizade. O Brasil estava pronto a receber os seus ministros e agentes diplomáticos e a enviar-lhes os seus. • Os documentos enviados por Bonifácio a D.Pedro e que o alcançaram na colina do Ipiranga eram: carta de D. João a seu filho, carta da princesa D. Leopoldina, carta de Chamberlain, agente secreto do príncipe, instruções das Cortes, exigindo o imediato regresso do príncipe e a prisão e processo de José Bonifácio já que era o personagem mais importante do movimento emancipador (ostensivamente visível) e carta do próprio José Bonifácio, onde à sua maneira viril, ele dizia: Senhor, as Cortes ordenaram a minha prisão por minha obediência a V. Alteza. E no seu ódio imenso de perseguição atingiriam também aquele que se preza em o servir com lealdade e dedicação do mais fiel amigo e súbdito. O momento não comporta mais delongas ou condescendências. A revolução já está preparada para o dia de sua partida. Si parte, temos a revolução do Brasil contra Portugal e Portugal atualmente não tem recursos para subjugar um levante, que é preparado ocultamente para não dizer quase visivelmente. Si fica, tem V. Alteza contra si o povo de Portugal, a vingança das Cortes, que direi?! Até a deserdação, que dizem já estar combinada. Ministro fiel que arrisquei tudo por minha Pátria e pelo meu Príncipe, servo obedientissimo do Senhor D. João VI, que as Cortes tem na mais detestável coação, eu, como Ministro, aconselho a V. Alteza que fique e faça do Brasil um reino feliz, separado de Portugal, que é hoje escravo das Cortes despóticas. Senhor, ninguém mais do que sua esposa, deseja sua felicidade e ela lhe diz em carta que com esta será entregue, que V. Alteza deve ficar e fazer a felicidade do povo brasileiro, que o deseja como seu soberano, sem ligações e obediências às despóticas Cortes portuguesas, que querem a escravidão do Brasil e a humilhação do seu adorado Príncipe Regente. Fique, é o que todos pedem ao Magnânimo Príncipe que é V. Alteza, para orgulho e felicidade do Brasil. E si não ficar correrão rios de sangue nesta grande nobre terra, tão querida do seu Real Pai, que já não governa em Portugal, pela opressão das Cortes; nesta terra que tanto estima V. Alteza e a quem tanto V. Alteza estima. José Bonifácio de Andrada e Silva .” . . . Disse George Bernard Shaw, o grande, independente, livre e culto espírito: “You see things as they are and you ask why?... But I dream things that never were and I ask why not?...” “Você vê as coisas como elas são e pergunta porquê?... Mas eu ouso sonhar coisas que nunca foram e pergunto porque não?...” Porque não acreditar na visão sacrossanta de um país de justiça, liberdade, equanimidade, probo, fraterno e bom? Porque não fazê-lo na sanidade do desinteresse pessoal, na sã ingenuidade de ignorar espinhos asperezas e perigos circunstantes, por uma crença visionária da inteligência convertida e votada ao bem, à justiça, à igualdade administrativa das oportunidades e potencialidades? Porque resistir a perceber que as origens míticas, místicas e tabus sobre o bem e o mal são geradas dentro de nós e são um reflexo aproximado ou deficiente do relativo bom ou mau funcionamento de nossos órgãos sensoriais ou sensitivos, nossa educação, cultura,* fortuitas circunstâncias e condicionalismo? Porque não acreditar na genuinidade da entrega e maravilhosa dádiva do ser? Joaquim Gonçalves Ledo, acreditou, lutou, amou e se entregou a essa sublime causa sem descanso, sem pensar em si e a coroou de pleno êxito. Eis porque o recordo neste significado momento, em que o homenageio como grande líder da Pátria. Porque foi altruísta, grande e generoso! Porque jamais foi mesquinho! Porque foi principalmente um homem de notável inteligência, sensível às coisas transcendentes, idealista dos maiores, que exemplificou na própria vida e testemunho o desprendimento, as aspirações de liberdade, igualdade, e fraternidade para todos. Porque sempre se definiu cristalinamente. Jamais foi covarde! Jamais ficou à espreita ou à espera no jogo de equilíbrio em cima do muro. Porque de espírito aberto, culto, de expressividade clara e inconfundível, de gesto e atitudes francas e rasgadas, corajosas, leais, foi um perseguido por seus ideais. Por ser ele próprio o amor, tão inexplicavelmente incompreendido e temido até por seus iguais. Amor e ódio, dois sentimentos poderosos e tão parecidos na raiz faziam incidir sobre ele e sua obra, teluricamente forte, ação benfazeja ou deletérea: bondade inspiradora ou nefasta maldade, augúrios inspiradores ou cálculos degradantes, grosseiros, corruptos, inqualificáveis. Não importa tanto quando nasceu, quando morreu, como, o quê e quanto estudou, embora saibamos ter-se formado na universidade de Coimbra. Importa sim, ter sido legítimo arquiteto de destinos gloriosos, virtudes excelsas e lídimo pedreiro mestre na construção do mundo novo da brasilidade!... Escolhi-o como exemplo, porque modestamente se ignorou ou se fez ignorar para dar a outros, ostensivamente brilhantes, hábeis políticos, às vezes bons diplomatas mas ávidos de poder, consciente ou inadvertidamente, ofuscando o brilho que os glorificou. Escolhi-o porque foi destemido construtor, lapidador incansável da pedra bruta, brunidor, alavancador, motivador de tudo o que seus ciumentos oponentes, na sua empedernida particular limitação, excessiva prudência ou temor não viam ou não lhes convinha ver: a dignidade imediata, urgente, já, a pátria grande, independente, fraterna, ande o sol da liberdade raiaria esplendoroso para todos. Entretanto, foi sua atitude e estratégia constante, determinada, rasgada e aberta a favor da Independência, da democracia e da República, que foi conquistando e realizando as condições necessárias, conquistando espíritos, mesmo os daqueles mais poderosos oponentes, que paulatinamente foram adaptando-se à sua visão de futuro. Esquecido no tempo e quase totalmente na história, começa hoje finalmente a surgir a estatura enorme desse primeiro brasileiro na verdade dimensão do que foi seu papel e responsabilidade no grande advento da independência e, posteriormente seus ecos na implantação da republica, que nos faz hoje soberanos cidadãos de uma pátria promissora, embora eivada de tantos dolorosos erros crônicos e carente ainda de liderança cristalina ao estilo glorioso de Joaquim Gonçalves Ledo, para nós cônscios cidadãos e brasileiros, silenciosos pesquisadores e praticantes da verdade, o verdadeiro Patriarca, o Patriota! O Estruturador! O Pai da Pátria! O primeiro brasileiro! Recordo-o por sua sanidade e candura, porque enfrentou poderosos com a maior inocência, objetiva e sincera simplicidade, coragem e desprendimento, porque ficou só, sem poder evitar em alguns correligionários deploráveis sentimentos, inveja, ciumes e temores produzidos pela sua grandeza de alma, coragem, visão e fito, pela destemida voz contra o erro e preconceito, contra a pequenez e ignorância de esbirros, despóticos ou poderosos, apesar de sua frágil e elegante aparência e modéstia real praticante. Recordo-o porque foi grande, nunca buscou cargos ou privilégios inerentes. Aceitou sempre e apenas encargos e desafios, pesados ônus, nunca pelos demais distribuídos ou devidamente aferidos. Fundou e criou importantíssimas organizações de bem comum, motivou e engendrou as grandes gestas e consensos que culminaram entre tantos eventos históricos com a independência e ideais republicanos, levando D. Pedro a correligionário máximo das nobilíssimas instituições libertárias quanto humanitárias a que o altruísta Ledo havia dedicado sua vida, para bem do Brasil: A Maçonaria Brasileira. A 15 de Setembro de 1821, segundo o consagrado escritor e competente pesquisador José Castellani, e outros, “Ledo fundou juntamente com o cônego Januário da Cunha Barbosa, o (Revérbero Constitucional Fluminense), jornal que teve a mais extraordinária importância no movimento libertador,” pois contribuiu para a formação, conscientização e substancial compenetração da essência e alma da nacionalidade. Ledo foi um aglutinador constante dos maçons e patriotas em torno do ideal de liberdade da Pátria. O título de Defensor Perpétuo do Brasil dado ao Príncipe Regente D. Pedro I, a 13 de maio de 1822, foi obra do grupo liderado por Ledo. O “Fico”, de 9 de janeiro de 1822, quando o Príncipe Regente, desobedecendo aos decretos 124 e 125 das Côrtes Portuguesas, resolveu ficar no Brasil, foi obra exclusiva da maçonaria Brasileira, e, principalmente da liderança de Ledo e seu grupo constituído por Januário da Cunha Barbosa e José Joaquim da Rocha. A 17 de junho de 1822, Ledo foi um dos fundadores do Grande Oriente do Brasil e, apesar de ser líder incontestável da Maçonaria Brasileira, deu sugestivamente o cargo de Grão-Mestre a José Bonifácio, reservando para si, modestamente, o cargo de quem realmente carrega a carga e o encargo: o cargo e tarefa de Primeiro Grande Vigilante. A 22 de agosto, por influencia do grupo de Ledo, o Príncipe Regente, era indicado para o Grão Mestrado, numa manobra política de fundamental importância para o advento da Independência. Com a eleição do Príncipe, José Bonifácio passou a Grão Mestre adjunto, o que o deixou magoado. No dia 9 de setembro*, em sessão do Grande Oriente do Brasil, com Ledo na presidência, D. Pedro era aclamado Imperador do Brasil. (* iniciando-se o ano maçônico no dia 21 de março e acrescentando-se o numero 4000 ao numero de anos da era vulgar, para formar o Ano da Verdadeira Luz, o 20° dia do 6° mês maçônico do ªda V.L de 5822 que é o que consta da ata dessa sessão do Grande Oriente é, na realidade, o dia 9 de setembro e não o dia 20 de agosto, como dizem historiógrafos mal informados, que afirmam que a maçonaria proclamou a independência no dia 20/8.) (Rodapé?) Posteriormente, tendo Ledo sido eleito deputado, José Bonifácio, em 3 de novembro de 1822, por razões “óbvias” de Estado, ordenou a prisão do grande patriota. Ledo foi avisado da cilada que lhe preparavam, através de carta do cônego Januário. Foi então obrigado a fugir do Rio para Niterói, disfarçado de mulher, pintado de preto e com um balaio na cabeça. Eis um homem que realiza sonhando! Eis um homem perseguido injustamente que consegue manter puro o seu coração e determinação, ante a própria frustração, ante a insanidade e sanha de seus antigos e obtusos correligionários, alguns sem visão ou de visão distorcida, egocêntrica! Eis um homem de coragem indômita, desprendido! Eis um homem de espírito livre mas leal! Um homem que sofre as ingratas conseqüências de seu caráter integro, repudiando a politicagem, a atitude dúbia e calculista. Um homem que pensa e diz honestas verdades. Que dimensão! Que visão histórica! Que sentido ético! D. Pedro quis homenagear Ledo, por inspiração, maquinação ou instigação de José Bonifácio, personalidade extraordinária sem duvida, considerado o Patriarca, invulgar por seu notável desempenho e capacidade de tornar as circunstâncias negativas em positivas, por sua habilidade diplomática que permitiu compor as diferentes facetas e radicalidades políticas entre as expressões e interesses das importantes personalidades da Maçonaria Azul e da Maçonaria Vermelha, hoje claramente definíveis e visíveis na distância do tempo. José Bonifácio, gigantesca estatura e importante desempenho em nossa história, ocupando afinal historicamente o lugar de patriarca que certamente por justiça e ética poderia e deveria ser pelo menos compartido com Joaquim Gonçalves Ledo, inspirador básico de idéias, estratégias, gestos e gestas, que incontestável e documentadamente conduziram o Brasil à independência, em meio às tremendas dificuldades, agruras, marchas e contra marchas, do compasso pendular do tempo e do destino, mas aquele era outro tipo de líder, essencial sem dúvida, hábil político, maquinador, sempre achegado politicamente ao poder e aos amigos do poder, agudo calculador, e no âmbito pessoal duro e implacável competidor, sobretudo no campo das idéias e dos interesses. Foi contudo grande e o Brasil também lhe deve as honras que afinal usufrui pela perenidade dos tempos. Ledo, alegre, contente, risonho, jubiloso, aparece gigantesco na sua franzina, fina e cortês aparência, mas de enorme estatura moral, o grande homem! Pretendia D. Pedro numa cerimônia especialmente convocada, oferecer a Ledo um título nobiliárquico, o de “Marquês da Praia Grande”, cerimônia sugerida, arquitetada, manipulada por José Bonifácio, desconfiando ou já profundamente convicto e perfeitamente sabedor de seus ideais republicanos e de como ansiava a independência, nos moldes propiciantes às idéias republicanas iluministas. Pretendia-se oferecer a Ledo um título nobiliárquico, para tentar aliciá-lo, certamente para comprometê-lo, desmoralizá-lo, corrompê-lo! Surge então o grande e desprendido gesto: Ledo recusa a pomposa e tentadora homenagem monárquica com a frase: “Majestade, não mereço tal título e não o desejo. Não o posso aceitar. Dê-me vossa alteza o título de cidadão brasileiro, patriota e homem de bem e me contentarei com a nobreza de coração...” Patriótico, leal, idealista, peito aberto, sincero, corajoso! Foi seu crime hediondo!... imperdoável para a “astúcia e calculo dos poderosos” com seu circunstancial amor próprio ferido! Lamentável realidade, sobretudo entre Irmãos da “ordem”, no estágio de civilização que ainda vivemos. Havia que revidar! Viu-se então perseguido tenazmente por toda a classe de tropeços e dificuldades culminando com o episódio anteriormente relatado, pela perseguição acirrada de capangas, tacanhos esbirros a serviço do poder, tendo sido escondido por L. Westine, cônsul sueco, que era maçom e instado a fugir disfarçado do país em navio que se dirigia a Buenos Aires, onde ficou aproximadamente 3 anos protegido por seu Ir. maçom Bernardino Rivadavia, presidente então da Nação Argentina. Com a queda dos Andradas, em 17 de julho de 1823, Ledo e os demais patriotas exilados puderam então voltar ao Brasil, tendo o Grande Fluminense assumido a cadeira de deputado a que tinha direito, permanecendo na Câmara até 1834, afastando-se posteriormente da política. Passada a tempestade, regressa ao Rio de Janeiro e na primeira oportunidade seu primeiro gesto é o de estender fraternalmente a mão cumprimentando o ser Ir:. Correligionário José Bonifácio, até à pouco seu inconsiderado perseguidor ou competidor implacável. Que iria prevalecer república ou monarquia constitucional? A historia nos conta da ação e espírito desses dois grandes vultos um mais indeciso, contemporizador e instigado pelo outro, mas apenas vislumbramos vestígios oficiais, tendenciosos ou parciais sobre Ledo e outros, atos e documentos por tanto tempo ignorados, passados quase de favor por empenhados escribas, nem sempre comprometidos com sua função de transmitir a historia documentada, pragmática, objetiva, imparcialmente, para adequada equação, entendimento ou julgamento posterior. Ledo, afastado da política veio a falecer em 19 de maio de 1847. Ledo foi sem o querer quase um insurreto! Insurgiu-se corajosamente, mostrou honestamente com timbre inconfundível seu heróico perfil!... Pediu, implorou, exemplificou, entregou-se, exigiu! Pagou um pesado tributo ao ficar tanto tempo esquecido e obnubilado pela história e pelos historiadores, que só recentemente começaram a vislumbrar parte dessas verdades históricas documentais, fazendo-lhes alguma justiça. Eis mais algumas razões porque quero recordá-lo e homenageá-lo hoje: porque Ledo sempre cultivou o bem e não precisou de manipuláveis, pétreos, férreos e implacáveis regulamentos, que exarados na implacável exatidão das letras sem espírito, aplicados na crueza e secura de espertos legalistas e interesseiros estrategistas, sempre mataram historicamente e matam precisamente pela implacabilidade da letra, jamais vivificam sem o devido e conspícuo entendimento do seu espírito, sem a autoridade moral de quem, * verdadeira e verticalmente compreenda e saiba interpretar esses “regulamentos” * e suas letras mortas, com isenção, magnanimidade, inteligente benevolência e tolerância, para realizar a transcendente obra da dignificação nacional, pessoal e, de respeito à pessoa humana. Porque Ledo algumas vezes e em alguns episódios, radical em princípios, nunca precisou da força bruta nem de violência ou subterfúgios primários para realizar o trabalho imenso redentor e sempre desafiante, tantas vezes feito necessariamente na surdina; porque sempre ajudou quem da ajuda precisou e nunca cruamente se furtou à sensatez de bem fazer e liderar o que tem que ser bem feito, em espírito leal e de irmandade. Porque vencido, fugitivo, ameaçado de morte até por alguns de seus achegados correligionários, vermelhos ou azuis, jamais renegou suas crenças, ideais, dignidade, nem albergou sentimentos de vingança ou desforra, ressentimentos intransponíveis ou reivindicações injustificáveis. Porque anistiado, ou vencedor, jamais tripudiou sobre os vencidos, nem se vangloriou de vitórias vãs ou pífias magnificações, honrarias, conquistas imerecidas, ridículas compensações de cunho pessoal ou aversões radicais irracionais. Porque nunca foi inseguro e com isso injusto. Porque nunca atuou com sanha ante quem se lhe opunha. Porque foi afinal um homem bom, o homem culto, na definição pedagógica de Rousseau, o grande e inspirado autor do “ contrato social”, tema e emulação de Joaquim Gonçalves Ledo. * Porque foi todo um homem! Porque foi o homem Ledo, * incontestávelmente a grande figura, o vulto principal nas circunstancias que motivaram a emancipação do país. Porque foi incansavelmente a alma latente e consciente do que deveria ser feito e bem feito. Porque foi incontestavelmente o chefe supremo espiritual e intelectual do movimento que trouxe as novas idéias de liberdade, igualdade, fraternidade ao país, * porque foi o condutor, o inspirador, a verdadeira alma de todo o movimento revolucionário da Independência. Porque esse extraordinariamente modesto ser, prenhe de virtudes e bondades admiráveis, avesso a exibicionismos, sem pessoal ambição por cargos, títulos ou honrarias foi quem dando-se por inteiro trabalhou constante e incansavelmente pela libertação e emancipação do Brasil. Finalmente, porque Joaquim Gonçalves Ledo, por seu perfil e estatura moral, é o exemplo humano importante de que carece a juventude brasileira, como o mais legítimo, honesto e patriótico paradigma. Quantos jovens ou brasileiros adultos, verdadeiramente o conhecem? Porque Joaquim Gonçalves Ledo merece, impõe-se e precisa ser reconhecido. Suas gestas, gestos, atitudes e personalidade precisam ser amplamente difundidos, *sua memória e alicerce, alimentação constante de seu propósito, incansável e eficaz, à difusão dos ideais da Independência e do espírito republicano democrático, foram vitais para o sucesso posterior, que hoje usufruímos, pois trata-se nada menos que do grande patriota, o nosso real Pai da Pátria! O Grande vulto nacional! Um grande padrão moral! O nosso grande Homem! Eis porque recordo nesta gloriosa data a oportunidade de difundir através de “Um olhar à história da Maçonaria”, em espírito de justiça e reconhecimento, o nome do grande primeiro brasileiro Joaquim Gonçalves Ledo. Erasmo Figueira Chaves Presidente emérito da “Academia Paulistana Maçônica de Letras” Titular da cadeira nº31 da “ACADIL” “Academia Ituana de Letras” Membro do “Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba” Colocar fac-simile da Proclamação Imperial de D.Pedro I sobre a Assembléia Constituinte: (Página 235) Bibliografia: Chaves, Erasmo Figueira = O Paladino da Educação “Cesário Motta Júnior Ferreira, Tito Lívio e Manuel Rodrigues: A Maçonaria na Independência Brasileira Editor Antonio Giusti = Ano 1822 A Maçonaria do Centenário - GR:.O:. 1822 : Scantiburbo, João de = Tratado Geral do Brasil Massoco, Carlos Eduardo Peixoto = Retratos de um passado Glorioso Castellani, José = A Maçonaria na década da Abolição e da República = edição Trolha Web: WWW. Comercioeartes.com.br/interna?cod_secção=5 Caldeira, Jorge = Viagem pela História do Brasil Varnhagen, Francisco Rodolfo = História Geral do Brasil D’Albuquerque,A.T. = A Maçonaria e A Independência do Brasil Vainfas, R. = Dicionário do Brasil Imperial Morel, M. = Sociedades e Sociabilidades = Universidade de Pais = Tese de doutoramento Gonçalves, R.M. = Quintino Bocaiúva Teixeira, Descartes de Souza = Antimaçonaria e os movimentos fundamentalista do fim dp século XX * Karnal, Leandro e * Freitas Neto, José Alves de = A escrita da Memória - Interpretações e análises Documentais Atenção: este trabalho precisará ser revisto pessoalmente por mim, depois de configurado pela Editora. Grato ! Erasmo

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